Você já se perguntou como é a vida em um dos lugares mais fechados do mundo? Recentemente, eu e minha esposa, Nikki, decidimos quebrar todas as barreiras do óbvio e mergulhar em uma jornada que muitos considerariam loucura: atravessar o Afeganistão. Hoje, quero levar vocês comigo para o norte do país, mais especificamente para a mística Mazar-i-Sharif e a histórica Balkh.
Esqueça o que você vê apenas nos telejornais. O que encontramos foi um misto de história milenar, sabores surpreendentes e uma realidade geopolítica que desafia qualquer entendimento simples. Prepare-se, porque viajar pelo “Cemitério dos Impérios” é uma experiência que muda a alma e o paladar.
Ou veja nosso vídeo sobre Mazar-i-Sharif no Youtube:
Balkh: Uma Viagem de 3.000 Anos no Tempo
Nossa jornada começou em Balkh, localizada a cerca de uma hora de Mazar-i-Sharif. Imagine caminhar por um lugar que já foi o centro do mundo antes mesmo de muitos impérios modernos sonharem em existir. Balkh tem mais de 3.000 anos de história e já foi um polo do zoroatrismo e do budismo antes da chegada do Islã.
Diferente de qualquer ponto turístico na Europa, aqui você não encontra filas ou vendedores de souvenirs. Éramos praticamente os únicos visitantes. O destaque absoluto foi a Mesquita Noh Gonbad (ou a Mesquita das Nove Cúpulas), uma das mais antigas do mundo.
Dica de ouro: Ao visitar locais históricos no Afeganistão, prepare-se para a burocracia. Você precisará de permissões especiais do departamento de turismo local (agora sob controle do Talibã). No nosso caso, o próprio chefe da secretaria decidiu nos acompanhar, o que tornou a experiência ainda mais… intensa.
A Mesquita Azul: O Coração Pulsante de Mazar-i-Sharif
De volta a Mazar-i-Sharif, fomos recebidos pela visão hipnotizante da Mesquita Azul (Santuário de Hazrat Ali). Se existe um lugar que define a palavra “espetacular”, é este. Os azulejos azuis e verdes, com padrões geométricos intrincados, brilham sob o sol de uma forma que as câmeras mal conseguem captar.
Mas nem tudo é contemplação silenciosa. Recentemente, a região foi atingida por um terremoto, e pudemos ver de perto os esforços de restauração. Além disso, a dinâmica social é um choque de realidade. Como mulher, a Nikki teve uma experiência diferente da minha; as restrições são severas e, em muitos momentos, ela era a única mulher estrangeira visível no complexo.
O Lado Doce de Mazar: Sorvete e Suco de Romã
Se você acha que a gastronomia afegã se resume a pão e carne, você está muito enganado. Um dos momentos mais memoráveis do dia foi provar o Sheer Yakh, o famoso sorvete tradicional de Mazar-i-Sharif.
Ele é feito com pistache, cardamomo e uma textura densa que lembra quase um doce de leite gelado. Fomos à sorveteria mais famosa da cidade, e o tamanho “médio” deles é, honestamente, uma refeição completa!
Outra parada obrigatória é nas barracas de rua para tomar um suco de romã fresco. As romãs do Afeganistão são famosas por serem as melhores do mundo, e vê-los espremendo a fruta na hora, com aquele vermelho vibrante, é um convite para o frescor em meio à poeira da viagem.
Academia no Afeganistão: Treinando com os Locais
Uma das coisas que mais gosto de fazer nas minhas viagens é manter a rotina, e isso inclui a musculação. Fui a uma academia local em Mazar-i-Sharif e a recepção foi fantástica.
O clima era de total camaradagem. Enquanto revezávamos as máquinas, conversávamos sobre futebol (o nome do Vinícius Júnior é um passaporte imediato para a amizade!) e a vida cotidiana. É nesses momentos, longe dos monumentos, que percebemos que o povo afegão é extremamente hospitaleiro e curioso sobre o mundo exterior.
Importante para mulheres viajantes: Encontrar academias femininas é um desafio gigante sob o regime atual. No entanto, alguns hotéis mantêm pequenas estruturas privadas onde mulheres podem treinar longe dos olhos do público. Sempre pesquise e pergunte com discrição.
Viajar para o Afeganistão é Seguro?
Essa é a pergunta que mais recebo. A segurança no Afeganistão é uma faca de dois gumes. Por um lado, o conflito armado em larga escala diminuiu consideravelmente, o que permite viajar por estradas que eram intransitáveis há cinco anos. Por outro, você está em um país governado pelo Talibã, com regras estritas e uma presença armada constante.
Caminhamos à noite por Mazar-i-Sharif e nos sentimos tranquilos, mas nunca baixamos a guarda. A comunicação pode ser difícil, e ter um guia local é essencial — não só pela língua, mas para entender as nuances de onde você pode ou não filmar.
Dicas Essenciais para sua Viagem ao Afeganistão
Se você é um viajante experiente e está considerando este destino, aqui estão alguns pontos cruciais:
- Vistos e Permissões: O processo é complexo e muda constantemente. Obtenha seu visto em embaixadas como as de Islamabad ou Dubai e, ao chegar em cada província, registre-se no departamento de turismo.
- Vestimenta: Respeito absoluto à cultura local. Homens devem evitar bermudas; mulheres devem usar o hijab e roupas largas que cubram todo o corpo.
- Conectividade: Compre um chip local (como a Roshan ou Afghan Wireless). O Wi-Fi dos hotéis costuma ser instável.
- Respeito acima de tudo: Você terá que interagir com membros do Talibã. Mantenha a calma, seja educado e siga as orientações de segurança.
Vale a pena visitar Mazar-i-Sharif?
Mazar-i-Sharif é um oásis de cor e história em um país que ainda tenta se reencontrar. A beleza da Mesquita Azul e a hospitalidade das pessoas nas ruas superam os desafios logísticos. É um destino para quem quer entender a geopolítica na prática, longe das lentes filtradas do ocidente.
Viajar “fora da zona de conforto” é exatamente isso: confrontar seus preconceitos e descobrir que, por trás de regimes complexos, existem pessoas comuns querendo compartilhar um sorvete e falar de futebol.





