Você já pensou em passar as férias na Síria? Eu sei, a pergunta parece absurda para muitos, mas respira fundo e me acompanha. Recentemente, desembarquei em Latakia (ou Latáquia), uma cidade costeira banhada pelo Mar Mediterrâneo que, por décadas, foi o reduto de luxo e poder da família de Bashar al-Assad. Hoje, em meio a uma Síria que tenta se reconstruir e celebrar sua recém-conquistada libertação, Latakia se revela como um dos destinos mais surpreendentes, liberais e vibrantes que já visitei.
Esqueça as imagens de destruição que você vê nos jornais sobre Alepo ou Damasco. Latakia é outra história. Por ter sido a sede do governo anterior, a cidade recebeu muito investimento e, curiosamente, foi poupada dos bombardeios. O resultado? Uma mistura de vibes que lembram o interior de São Paulo nos anos 80, com o charme das cidades litorâneas europeias e uma pitada de geopolítica fervilhante em cada esquina.
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Como chegar: A aventura começa no trajeto
Sair de Alepo rumo à costa não é apenas um deslocamento, é uma imersão na realidade local. Pegamos uma van compartilhada (as famosas “micro”) e, para nossa surpresa, o conforto veio com um acompanhante inusitado: um passageiro carregando um fuzil Kalashnikov como se fosse uma mochila comum. Na Síria atual, ver civis ou militares armados no transporte público é tão normal quanto ver alguém com um celular na mão.
Dica de ouro: Se você estiver com malas grandes, as vans compartilhadas podem ser um desafio. Nós resolvemos isso de forma simples: pagamos um assento extra para as bagagens por cerca de 5 dólares. Valeu cada centavo para não ter que esperar horas pela próxima condução.
A primeira impressão: Brasil em Latakia
Ao chegarmos no nosso albergue, o “Tintin” (sim, inspirado no personagem), fomos recebidos com um carinho que só o povo sírio sabe dar. O dono, ao saber que éramos brasileiros, colocou uma bandeira enorme do Brasil no quarto e nos entregou livros do Tintin em português. É esse tipo de hospitalidade que define a viagem pela Síria: eles estão genuinamente felizes em ver turistas após 14 anos de guerra civil.
O que fazer em Latakia: Do Império Romano ao Modernismo
Latakia é um prato cheio para quem ama história. Um dos pontos mais impressionantes é o Tetra Pórticus, um Arco do Triunfo gigantesco construído pelo imperador Septimus Severus por volta de 183 d.C. Caminhar por ali à noite, com as luzes da cidade refletindo nas pedras milenares, é sentir o peso de quase dois mil anos de civilização.
Mas a cidade também vive o presente. Caminhar pelo “Corniche” (o calçadão à beira-mar) é o programa favorito dos locais. Ali, famílias fumam narguilé (ou argile, como eles chamam), jovens tiram selfies com a nova bandeira da Síria e o clima de celebração pela libertação — ocorrida oficialmente em dezembro de 2025 — ainda está no ar.
O Bazar Antigo: Um labirinto de tesouros
Se você quer autenticidade, precisa se perder no bazar antigo. A arquitetura parece saída de um castelo da Idade Média, com tetos abobadados e passagens estreitas. Encontramos de tudo: de lojas de roupas usadas a joalherias que exibem peças de ouro nas vitrines sem qualquer segurança armada na porta. É chocante perceber que, em certos aspectos, Latakia parece muito mais segura do que muitas capitais brasileiras.
Geopolítica na prática: Russos e Rebeldes
Não dá para visitar Latakia sem notar a presença russa. A base naval de Tartus fica logo ao sul, e a base aérea russa está a apenas 20 minutos do centro. Esses locais foram cruciais para manter o regime anterior, e ainda hoje há negociações de bastidores sobre a permanência desses contingentes. Ver navios de guerra no horizonte enquanto você toma um café no calçadão é um lembrete constante de que você está no epicentro de um dos conflitos mais complexos do século XXI.
Cultura e Hospitalidade: O “Efeito Turista”
Uma das coisas mais bizarras (e maravilhosas) de viajar pela Síria agora é que você é tratado quase como uma divindade. Como quase não há turistas estrangeiros, os locais fazem questão de interagir. Fomos à academia malhar e, em menos de uma hora, já tínhamos feito amigos, ganhado lanches de graça e recebido convites para jantar em casas de família.
Dica para os viajantes: Não tenha medo de interagir. O povo sírio é extremamente educado e hospitaleiro. Mesmo em lugares mais conservadores, como o Afeganistão (onde estivemos semanas antes), a recepção é calorosa, mas na Síria existe uma abertura maior para o diálogo e uma alegria contagiante com a nova fase do país.
O futuro do turismo na Síria
Eu arrisco uma previsão: em dois ou três anos, navios de cruzeiro estarão parando em Latakia ou Tartus. A cidade tem infraestrutura, internet, eletricidade (embora ainda existam cortes e muitos geradores e painéis solares espalhados) e um potencial turístico absurdo. O Mar Mediterrâneo aqui é lindo, a comida é espetacular e os preços são extremamente atrativos para quem carrega dólar ou euro.
Dicas Práticas para sua Viagem
- Segurança: Embora a guerra tenha “acabado” em termos de grandes bombardeios, evite filmar instalações militares. É uma regra de ouro em qualquer lugar do mundo, mas na Síria a polícia é onipresente.
- Energia: Prepare-se para apagões programados. A maioria dos estabelecimentos usa geradores barulhentos ou baterias solares. Tenha sempre um power bank carregado.
- Religião: Latakia é uma mistura de muçulmanos (sunitas e alauítas) e cristãos. Você verá igrejas ortodoxas gregas ao lado de mesquitas futuristas com luzes de neon. Respeite os códigos de vestimenta, especialmente em locais religiosos, mas saiba que Latakia é bem mais liberal que o interior do país.
- Dinheiro: A inflação é alta. Você andará com maços enormes de notas de 5.000 libras sírias. Cartões de crédito internacionais ainda não são amplamente aceitos, então leve dinheiro em espécie (Dólar ou Euro) para trocar.
Vale a pena visitar?
Se você busca apenas resorts cinco estrelas e mordomia, talvez ainda não seja a hora. Mas se você busca história viva, contato humano real e quer ver de perto a reconstrução de uma nação, a Síria — e especificamente Latakia — deve estar na sua lista. É inspirador ver a esperança nos olhos de quem sobreviveu a uma década de conflito e agora olha para o mar esperando por dias melhores.
Latakia não é apenas um destino; é uma lição de resiliência. E eu mal posso esperar para voltar e ver os cruzeiros ancorados naquele porto.





