Viajar para a Síria ainda soa como um tabu para muitos, mas se você é do tipo que busca destinos que desafiam o senso comum e oferecem uma aula de história e geopolítica ao vivo, Latakia (ou Latáquia) precisa estar no seu radar. Recentemente, tive o privilégio de explorar essa joia costeira, que por décadas foi o reduto de poder da família de Bashar al-Assad, e o que encontrei foi um país vibrante, em pleno renascimento, apenas um ano após o fim oficial do conflito.
Neste artigo, vou compartilhar minha experiência de explorar o lado menos óbvio da Síria. De cavernas sagradas de 3.000 anos a dicas práticas sobre como lidar com a economia local desconectada do resto do mundo, aqui está tudo o que você precisa saber para planejar sua aventura por Latakia.
Ou veja meu vídeo sobre Latakia:
O Clima em Latakia: Esperança e Reconstrução
Diferente de Alepo, que ainda carrega cicatrizes profundas da guerra, Latakia parece respirar um ar de “novo começo”. Caminhando pelo calçadão (Corniche), embora a vista próxima ao porto não seja a mais paradisíaca, a energia é contagiante. O objetivo dessa fase da minha viagem não era apenas o turismo clássico — embora existam lugares incríveis como o Castelo de Saladin nas proximidades —, mas sim sentir o pulso social.
Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a narrativa visual espalhada pela cidade. Os outdoors do governo agora focam na união: “Um país, um povo”. As imagens mostram rebeldes e civis juntos, focando em uma Síria livre e multicultural. É um passo fundamental para a implementação de uma paz duradoura. E, acreditem, em termos de segurança per capita, sinto-me por vezes mais tranquilo aqui do que em certas regiões do Brasil.
Tesouros Escondidos: A Igreja Ortodoxa de Santa Clara
Um dos momentos mais mágicos da viagem foi visitar a Igreja Ortodoxa de Santa Clara, localizada bem no centro de Latakia. O que torna este lugar especial não é apenas a arquitetura acima do solo, mas o que há abaixo dele.
Descemos para uma caverna que, segundo os locais, tem cerca de 3.000 anos. É um espaço úmido, com água pingando do teto, onde as pessoas costumam ir para beber dessa água sagrada, especialmente no Natal. A caverna serviu como abrigo e local de oração muito antes do cristianismo se estabelecer como o conhecemos. Ver essa continuidade histórica, onde a fé atravessa milênios sob o nível da rua, é de arrepiar.
Dicas Práticas: O Desafio de Viajar sem Cartão de Crédito
Se você planeja visitar a Síria em 2026, prepare-se: o país ainda vive sob sanções que o desconectam do sistema financeiro global. Isso significa que seu Visa, Mastercard ou Amex não vão passar nem na melhor loja da cidade.
1. Dinheiro Vivo é Lei
Você precisa trazer dólares ou euros em espécie. A troca de dinheiro é feita constantemente, e como a inflação ainda é um fator, você acabará carregando maços consideráveis de notas de 5.000 libras sírias (as maiores denominações). Um maço que representa cerca de 50 dólares pode ser bem volumoso, então leve uma doleira ou uma bolsa segura.
2. A Boa Notícia da Visa
Há rumores e notícias recentes de que a Visa já está em negociações com o governo local para reintegrar o país ao sistema de pagamentos. Isso seria um divisor de águas para a produtividade e eficiência do comércio sírio, mas por enquanto, o dinheiro vivo ainda é o soberano.
A Hospitalidade Síria e o “Melhor Passaporte do Mundo”
Eu sempre digo: se você quer ser bem recebido em qualquer lugar fora da bolha dos países ricos (EUA, Europa, Canadá), o passaporte brasileiro é o seu maior trunfo. Na Síria, dizer que você é do Brasil abre sorrisos instantâneos. Futebol, café e a simpatia natural do brasileiro criam uma conexão imediata que transcende barreiras linguísticas.
Em Latakia, essa hospitalidade se traduz em pequenos gestos. No restaurante onde jantamos, ganhamos doces típicos de cortesia. Experimentamos um chamado “Clama”, que lembra um pouco o nosso brigadeiro, mas com uma textura e resiliência únicas. Os sírios são, sem dúvida, um dos povos mais amigáveis que já conheci em minhas andanças pelo mundo.
Transporte: De Latakia para Damasco
Para seguir viagem rumo à capital, Damasco, optamos pela estação de ônibus de Latakia. Embora existam as famosas vans compartilhadas, decidimos por um ônibus grande de linha, o que se mostrou uma excelente escolha.
- Preço: O ticket custou cerca de 12 dólares para uma viagem de aproximadamente 5 horas.
- Conforto: O ônibus era espaçoso, permitindo até que eu trabalhasse durante o trajeto.
- Segurança para Mulheres: Notamos que os ônibus grandes são preferidos por famílias e mulheres viajando sozinhas, oferecendo um ambiente mais confortável do que as vans compartilhadas, que costumam ser dominadas pelo público masculino.
O Lado B da Geopolítica: Russos e Abandono
A jornada de ônibus entre as cidades revela o que os noticiários nem sempre mostram. Passamos por Tartus, a segunda maior cidade da costa, onde a Rússia ainda mantém sua base naval estratégica. A presença russa hoje é muito mais contida e isolada em bases do que durante o auge da guerra, quando soldados eram vistos frequentemente nos cafés de Alepo.
Pela janela, o cenário é uma mistura de beleza natural e abandono. Vimos bases militares desativadas, estátuas derrubadas do antigo regime e postos de gasolina abandonados. É um lembrete visual de que a guerra acabou faz pouco tempo, e o processo de limpeza e reconstrução ainda vai levar anos.
Por que visitar Latakia agora?
Latakia é, talvez, a cidade mais liberal da Síria hoje. Você verá uma mistura vibrante de sunitas, alauítas, armênios e cristãos convivendo em harmonia. Durante o Natal, as luzes e árvores decoradas tomam conta das ruas, e a moda feminina reflete essa diversidade — é muito comum ver mulheres sem cobertura de cabeça e vestindo-se de forma moderna.
Dicas Finais para o Viajante:
- Não fume em locais fechados? Esqueça. Na Síria, o hábito de fumar dentro de estabelecimentos ainda é onipresente. Se você é sensível ao cheiro, prepare-se.
- Conexão Humana: Aproveite para conversar com os locais. Muitos sírios que fugiram durante a guerra (estimados em 2 milhões) estão começando a retornar agora, trazendo consigo histórias de resiliência e um desejo enorme de reconstruir o país.
- Explore o Litoral: A costa da Síria é belíssima. Se tiver tempo, visite os resorts que estão renascendo e aproveite o Mar Mediterrâneo de um ângulo que poucos turistas têm a chance de ver.
Viajar pela Síria em 2026 é desafiar o “Nível 4” de perigo do Departamento de Estado americano, mas é também a chance de ver de perto o nascimento de uma nova nação. Latakia é o exemplo perfeito de que, mesmo após a pior das tempestades, o sol sempre volta a brilhar na costa.





