Viajar pelo Afeganistão é, sem dúvida, um dos maiores desafios que já encarei. Mas estar em Bamiyan e caminhar diante dos nichos vazios onde outrora repousaram as maiores estátuas de Buda do mundo é uma daquelas experiências que mudam a sua perspectiva sobre o tempo e a política.
Se você, assim como eu, é apaixonado por destinos que saem da rota comum e carregam camadas profundas de história e geopolítica, acompanhe como foi explorar as ruínas de Bamiyan e a impressionante “Cidade dos Gritos”. Veja também meu vídeo completo visitando os Budas de Bamiã:
Bamiyan: Um Refúgio de História no Coração do Afeganistão
Chegar a Bamiyan, a cerca de 2.500 metros de altitude, exige fôlego — literalmente. A cidade é visualmente deslumbrante, lembrando cenários de filmes como Star Wars (quem já visitou a Tunísia sentirá a semelhança). Mas o que realmente domina a paisagem são os imensos paredões de pedra repletos de cavernas que serviam de moradia para monges budistas há séculos.
Os Budas de Bamiyan e a Cicatriz de 2001
Visitar o local onde ficavam os Budas é um exercício de melancolia. Destruídos pelo Talibã em março de 2001, poucos meses antes do 11 de setembro, o que restou são fragmentos de pedra que parecem um quebra-cabeça impossível de montar.
Subimos as escadarias internas — túneis escavados por dentro da própria montanha — até chegar onde seria a cabeça do Buda. A vista lá de cima é privilegiada, mas a sensação é irônica: hoje, quem guarda esses tesouros arqueológicos e cobra o ingresso dos turistas é o próprio grupo que os destruiu.
Shahr-e Gholghola: A Cidade dos Gritos
Logo adiante, visitamos a cidadela de Shahr-e Gholghola, ou “Cidade dos Gritos”. O nome assustador vem do massacre cometido por Genghis Khan e seus mongóis no século XIII, que exterminaram a população local.
Caminhar por essas ruínas islâmicas da Rota da Seda, com o apoio atual da UNESCO para preservação, é fascinante. O lugar está praticamente vazio; éramos apenas nós, nosso guia Azim e a onipresente guarda do Talibã. É um destino que, em qualquer outro país, estaria lotado de turistas, mas aqui oferece um silêncio reflexivo.
Geopolítica “na veia”: Cicatrizes de Guerra e Blindados Soviéticos
O Afeganistão não permite que você esqueça seu passado bélico. Nas estradas em direção a Cabul, as cicatrizes são visíveis:
- Blindados Soviéticos: Carcaças de BRTs soviéticos da invasão de 1979 decoram entradas de cidades como troféus de guerra.
- Estradas Esburacadas: Muitos trechos da estrada são destruídos não pelo tempo, mas por IEDs (dispositivos explosivos improvisados) usados contra comboios da coalizão internacional.
- Herança Americana: Vimos diversos Humvees e caminhões deixados para trás pelos americanos, agora integrados à frota do governo atual.
Vida Normal em Cabul?
Para encerrar a jornada, voltamos a Cabul e decidimos mostrar um lado que pouco aparece no noticiário: a modernidade. Jantamos em um shopping center moderno, com cafés que poderiam estar em qualquer capital europeia. É um contraste gritante com a vida rústica das montanhas, revelando um Afeganistão complexo, que tenta equilibrar tradições conservadoras com uma vontade latente de progresso.
Vale a pena visitar o Afeganistão agora?
O turismo ainda é incipiente e burocrático, exigindo permissões (permits) constantes. No entanto, o povo afegão é extremamente hospitaleiro. Ao visitar, você ajuda diretamente a economia local — guias, motoristas e pequenos comerciantes que dependem desses recursos.
Dicas Práticas para o Viajante
- Guia Local: É essencial. Recomendo fortemente o Azim, que nos deu todo o suporte em Cabul e Bamiyan.
- Respeito à Cultura: Em Bamiyan, o clima é um pouco mais liberal, mas o respeito às vestimentas e normas locais é fundamental.
- Altitude: Prepare-se para os 2.500m. O cansaço vem rápido!

