De Herat a Kandahar: Como é cruzar o Afeganistão de ônibus por 10 horas?

Viajar para o Afeganistão de ônibus

Viajar pelo Afeganistão é, por definição, sair da zona de conforto. Mas existe um trecho específico que faz até o viajante mais experiente respirar fundo: a estrada que liga Herat a Kandahar. Estamos falando de cruzar as províncias de Helmand e Kandahar, regiões que, por décadas, foram o epicentro de conflitos e são consideradas o berço do Talibã.

Se você está planejando uma viagem para o Afeganistão ou apenas tem curiosidade sobre como é a vida por trás das manchetes, acompanhe meu relato de 10 horas em um ônibus VIP cruzando o deserto afegão. Ou veja nosso vídeo completo sobre viajar no Afeganistão de ônibus:

A Partida: O Caos Organizado de Herat

Nossa jornada começou cedo em Herat. Se você já leu meu post sobre a cidade, sabe que comprar uma passagem de ônibus aqui não é como entrar em um site e clicar em “reservar”. É uma zona. A “estação” é, na verdade, um aglomerado de ônibus e lojas de passagens, onde a gritaria é a regra.

Pagamos cerca de 12 dólares por pessoa pelo que eles chamam de “Ônibus VIP”. Pode parecer caro para os padrões locais, mas a segurança e o conforto valem cada centavo.

Dica de Ouro: No Afeganistão, a logística é baseada na confiança. Deixamos nossas malas grandes no bagageiro inferior e subimos apenas com o essencial (computador, dinheiro e passaportes). É um exercício de desapego, mas a hospitalidade local é surpreendente.

A Vida Dentro de um Ônibus VIP Afegão

Ao entrar no ônibus, a primeira surpresa: você deve tirar os sapatos. Eles entregam um saco plástico para você guardar o seu calçado. O interior é todo acarpetado, o que traz uma sensação estranha de “sala de estar” em movimento.

Eu e Nikki (minha esposa e parceira de aventuras) fomos colocados nas poltronas da frente. Notei algo importante: o ônibus estava lotado de homens. Nikki era a única mulher visível. No Afeganistão, as normas sociais são rígidas, especialmente em regiões conservadoras como o sul. Ela viajou coberta e, em muitos momentos, as autoridades nos checkpoints mal notavam sua presença, focando apenas em mim.

Geopolítica na Janela: Marcas da Guerra e Influência Estrangeira

Enquanto deixávamos Herat, a paisagem começou a revelar camadas da história recente. Passamos por bases militares abandonadas e museus como o do Mujahideen. Um ponto fascinante que observei foi a presença de bandeiras da Índia em algumas infraestruturas.

A Índia tem investido pesado no Afeganistão como uma manobra estratégica para cercar o Paquistão. É a geopolítica real acontecendo diante dos nossos olhos: investimentos que, embora tenham motivações políticas, acabam por melhorar a infraestrutura básica para o povo afegão.

As estradas, inclusive, são surpreendentemente boas em muitos trechos. Isso é herança dos trilhões de dólares investidos pela coalizão internacional (liderada pelos EUA) durante os 20 anos de ocupação. Quem diz que nada foi construído nesse período claramente não cruzou o país por terra.

Cruzando Helmand: O Deserto e as Bases Militares

A província de Helmand é vasta e desértica. É uma paisagem que lembra Tatooine, de Star Wars. Mas a beleza natural esconde um passado sombrio. Cruzamos bases gigantescas, como a antiga base aérea de Camp Shorabak, que abrigou fuzileiros navais americanos e tropas britânicas.

Ver aquelas estruturas imensas agora silenciosas, cercadas por defesas de terra e antenas abandonadas, traz uma reflexão profunda sobre a efemeridade do poder militar.

Um ponto positivo: o país está sendo “salvo” por painéis solares chineses baratos. Como grande parte do Afeganistão não tem rede elétrica confiável, o sol do deserto virou a principal fonte de energia para as comunidades isoladas.

Interações Inusitadas: Chá com o Talibã?

Muitas pessoas me perguntam sobre a segurança. Durante uma parada para descanso no meio do deserto, fui abordado por alguns homens. Descobri que dois deles eram membros do Talibã. Minha reação inicial foi de alerta, mas a interação foi o oposto do que se imagina.

Eles foram extremamente cordiais. Um deles até comprou uma bebida para mim e para a Nikki. “Se tiverem qualquer problema, falem conosco. Queremos que os turistas se sintam seguros”, disseram. É uma estratégia clara do novo governo para mudar a imagem internacional do país. Recebi até um pedido de selfie de um deles, de forma bem discreta.

Nota importante: Como cristão e estrangeiro, eu não precisava descer para as orações, mas em regiões como Kandahar, é respeitoso (e mais seguro) seguir o fluxo social para não ser visto com estranheza.

O Desafio da Chegada em Kandahar

O plano era chegar durante o dia, mas o “Tetris” do trânsito afegão e as múltiplas paradas para oração e checkpoints transformaram a viagem em 10 horas. Chegamos em Kandahar às 20h, na escuridão total.

Kandahar é o coração espiritual e político do Talibã. Chegar à noite, sendo estrangeiro, gera um estresse natural. Fomos cercados por motoristas de táxi agressivos na rodoviária.

A sorte foi que fizemos amizade com um senhor no ônibus. Ele percebeu nossa vulnerabilidade e nos colocou em seu táxi. Ele desviou do próprio caminho por 20 minutos apenas para garantir que chegássemos em segurança ao nosso hotel. E o mais incrível: ele se recusou terminantemente a aceitar qualquer pagamento. “Você é meu convidado no Afeganistão”, ele disse pelo Google Tradutor.

Onde se Hospedar e o que Comer em Kandahar

Finalmente no hotel, a recompensa foi um jantar tradicional: Biryani e Kebab. Depois de 12 horas sem uma refeição sólida, aquele sabor foi inesquecível.

Ficamos em um quarto estilo tradicional, com almofadas no chão e uma decoração que remete aos palácios locais. É um contraste fascinante com o caos das ruas. Kandahar é mais conservadora que Cabul e Herat, e isso se reflete em tudo, desde a vestimenta até a forma como as pessoas interagem.

Conclusão: Vale a Pena?

Cruzar o sul do Afeganistão não é para todos. É cansativo, psicologicamente desgastante e exige um respeito profundo pela cultura local. No entanto, é a única forma de entender a complexidade deste país. A hospitalidade afegã não é um mito; ela sobreviveu a décadas de guerra e continua sendo o traço mais marcante de seu povo.

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