Você já se perguntou como é estar no lugar que, por décadas, foi considerado o mais perigoso do mundo? Recentemente, aterrei em Kandahar, no Afeganistão. Não apenas uma cidade, mas o epicentro espiritual e político do Talibã (ou TB, como os locais e viajantes costumam se referir para evitar problemas).
Viajar pelo Afeganistão em 2026 é como caminhar por um livro de história vivo, onde as cicatrizes da ocupação soviética, da invasão americana e da guerra civil ainda estão frescas em cada esquina. Neste guia, compartilho minha experiência explorando Kandahar sem guia, enfrentando checkpoints e tentando entender a complexa geopolítica por trás das montanhas afegãs.
Ou veja meu vídeo completo sobre Kandahar:
A Chegada a Kandahar: Regras, Permissões e o “Sábado” Afegão
Chegamos a Kandahar tarde da noite e logo aprendemos a primeira lição: o tempo aqui funciona de forma diferente. Era sexta-feira, o equivalente ao nosso domingo. No Afeganistão, isso significa que repartições públicas, como o Ministério da Cultura, estão fechadas.
Mesmo com uma permissão nacional de viagem obtida em Cabul, cada província exige que você se apresente e valide sua entrada. Sem essa validação local devido ao feriado, nossa jornada começou com uma incerteza: o TB seria amigável? Conseguiríamos entrar nos locais históricos?
A Cidade Mais Conservadora do Mundo
Kandahar é, sem exagero, a cidade mais conservadora que já visitei. Enquanto em Cabul a Nick podia circular com o rosto mais à mostra, aqui a regra é rígida: a abaya completa é indispensável para as mulheres.
A atmosfera é densa. A cidade é repleta de checkpoints militares. Cada vez que o nosso tuk-tuk parava diante de um guarda, a câmera baixava imediatamente. É uma dança constante entre a curiosidade de registrar e o respeito absoluto às regras de segurança local.
Subindo os 40 Degraus (Chihil Zina)
Nosso primeiro destino foi o Chihil Zina, ou “Os 40 Degraus”. Trata-se de uma gruta esculpida na rocha por ordem do Imperador Babur, descendente de Gêngis Khan, para celebrar suas conquistas territoriais.
A subida é exaustiva; os degraus de pedra são desproporcionalmente altos e irregulares. No entanto, a recompensa é a melhor vista panorâmica de Kandahar. De cima, você vê uma cidade cercada por montanhas áridas, uma beleza bruta que contrasta fortemente com a história violenta da região.
Lá do alto, refleti sobre a geopolítica recente. Muitos críticos dizem que os trilhões de dólares investidos pela coalizão internacional em 20 anos foram totalmente desperdiçados. Mas, ao caminhar pelas estradas e ver os painéis solares que hoje sustentam a energia de boa parte do país, percebo que a infraestrutura física ficou. O retrocesso é social e político, mas o país que vi é fisicamente mais desenvolvido do que o cenário apocalíptico da guerra civil dos anos 2000.
Entre Muros Antiexplosão e o Fantasma da Guerra
Caminhar pelas ruas de Kandahar é observar o que chamo de “arquitetura do medo”. Muros de concreto gigantescos, projetados para conter o impacto de carros-bomba, ainda cercam prédios que antes pertenciam à polícia ou ao antigo exército nacional (ANA).
Hoje, esses mesmos prédios ostentam a bandeira branca do Talibã. Vimos diversas picapes Ranger verdes — veículos que antes pertenciam aos americanos e agora servem como troféus de guerra e meio de transporte oficial do novo governo. É uma sensação estranha ver o aparato de uma superpotência sendo operado por aqueles que a expulsaram.
A Mesquita Vermelha e a Conexão com Bin Laden
Um dos momentos mais fascinantes e tensos foi a visita à Mesquita Vermelha. Este era o local de oração favorito de Mullah Omar, o fundador do movimento. Diz a história local que ele chegou a convidar Osama bin Laden para rezar ali dentro.
A mesquita é arquitetonicamente simples, sem o luxo ou os mosaicos detalhados que vi em Herat. Fomos recebidos com uma curiosidade silenciosa. No final da visita, o guarda nos perguntou discretamente se éramos muçulmanos. Ao explicarmos que éramos cristãos brasileiros, fomos tratados com uma hospitalidade genuína. No Afeganistão, dizer que você é brasileiro costuma desarmar tensões e abrir portas que a política internacional mantém fechadas.
O Lado Humano: Cricket e a Invisibilidade Feminina
Apesar de toda a rigidez teocrática, a vida insiste em acontecer nos espaços que sobram. Vi grupos de crianças jogando Cricket com a mesma paixão que jogamos futebol nas ruas do Brasil. O esporte parece ser uma das poucas válvulas de escape permitidas para a juventude masculina.
Por outro lado, o parque de diversões da cidade é um retrato melancólico da realidade atual. Os brinquedos estão enferrujados ou operando de forma improvisada por jovens que se recusam a parar de brincar. O impacto mais profundo, contudo, é a ausência: não há mulheres. Em nenhum lugar público de lazer ou praça. É uma sociedade visualmente composta apenas por homens, onde metade da população foi silenciada e confinada ao ambiente doméstico.
A Importância da Educação no Combate ao Extremismo
Durante nossa caminhada, passamos por projetos financiados pela UNICEF e pela USAID. É doloroso perceber como o corte de verbas internacionais para educação facilita o recrutamento de grupos extremistas. Sem acesso a escolas formais, as crianças de áreas pobres tornam-se vulneráveis a escolas fundamentalistas que ensinam apenas o radicalismo. A educação não é apenas um direito humano; em lugares como Kandahar, ela é a única ferramenta real para garantir a paz a longo prazo.
Dicas para quem deseja visitar o Afeganistão
Se você é um viajante experiente e pretende desbravar o país por conta própria:
- Respeite o Dress Code: Use o Perahan Tunban (a roupa tradicional masculina). Não se trata de apropriação cultural, mas de uma tática de segurança para se misturar à multidão e evitar chamar atenção desnecessária.
- Documentação em Dia: Tenha sempre cópias físicas das suas permissões. A burocracia é lenta e os checkpoints são frequentes.
- Gestão Financeira: O banco AIB ainda é a melhor opção para saques com cartões internacionais, mas nunca dependa disso. Traga dólares em espécie para trocar no mercado local.
- Segurança Fotográfica: Jamais aponte a câmera para militares, bases do governo ou mulheres. O bom senso é o seu melhor guia.
Conclusão
Kandahar não é um destino de férias convencional; é um choque de realidade. Saí de lá com o coração pesado pelas restrições impostas às mulheres, mas com uma profunda admiração pela resiliência do povo afegão. Eles são muito mais do que as manchetes de guerra sugerem: são seres humanos extremamente hospitaleiros tentando encontrar normalidade em meio ao caos histórico.





