Viajar para o Afeganistão é, sem dúvida, um dos maiores desafios que já encarei na minha vida de viajante. Quando decidi explorar este país, conhecido historicamente como o “Cemitério dos Impérios”, sabia que não seria uma jornada comum. Depois de passar por Cabul e Bamiyan, meu próximo destino era Herat, uma cidade situada no noroeste do país, quase na fronteira com o Irã. Muitos viajantes e locais a descrevem como a cidade mais liberal e progressista do Afeganistão. Mas, o que “liberal” significa em um país sob o comando do Talibã? Preparei este guia completo sobre a minha experiência viajando sem guia por Herat para você entender a realidade atual desse destino fascinante.
Ou veja meu vídeo completo sobre minha experiência em Herat, no Afeganistão:
O Voo da Ariana Afghan Airlines: Uma Viagem no Tempo
Minha jornada para Herat começou no aeroporto de Cabul. Voar com a Ariana Afghan Airlines é uma experiência antropológica por si só. O avião, um Boeing 737-400 antigo, ainda ostentava a bandeira do governo anterior, um detalhe curioso dado o cenário político atual. Um dos momentos mais surreais foi o trajeto de ônibus do terminal até a aeronave: o motorista dirigiu por literalmente 10 metros. Foram sete segundos de trajeto!
Sobrevoar o Afeganistão é ver de cima uma geografia árida e imponente que explica muito sobre a resistência desse povo ao longo dos séculos. Ao pousar em Herat, a primeira missão foi encontrar um táxi. No Afeganistão, a negociação faz parte da cultura. O motorista pediu inicialmente 500 afeganes, mas fechamos por 400 (cerca de 5 dólares). Embora a diferença seja pequena para nós, é fundamental negociar para manter o equilíbrio da economia local, sem deixar que se aproveitem do turista, mas também sendo consciente da realidade financeira deles.
Onde se Hospedar em Herat: A Realidade Fora do Booking
Se você está acostumado a reservar tudo pelo Booking ou Hostelworld, Herat vai te dar um choque de realidade. A oferta online é quase inexistente. Encontramos apenas um hotel listado por cerca de 50 dólares, o que achamos caro para o padrão. Acabamos indo por recomendação para um hotel local que custou 28 dólares a diária.
Não espere luxo. O quarto não era o mais limpo do mundo, mas para quem viaja de forma independente por zonas de conflito ou países instáveis, o conforto é secundário à localização e segurança. Em Cabul, tivemos uma experiência incrível em um albergue de mochileiros, mas em Herat, a estrutura ainda é muito voltada para o público local ou trabalhadores de ONGs.
Explorando a Cidadela de Herat (Qala Iktyaruddin)
O grande destaque histórico da cidade é a Cidadela de Herat. Ela foi construída originalmente por Alexandre, o Grande, em 330 a.C., quando ele invadiu a região. É impressionante pensar que aquelas muralhas viram impérios subirem e caírem por mais de dois milênios. A estrutura foi destruída e reconstruída inúmeras vezes. Curiosamente, a renovação mais recente ocorreu entre 2006 e 2011, com apoio da coalizão internacional e do Japão.
Ao caminhar pelas torres da cidadela, a vista da cidade é de tirar o fôlego, mas a presença política é constante. No topo da torre mais alta, a bandeira branca do Talibã tremula, marcando o novo capítulo da história afegã. Durante a visita, ouvimos histórias sombrias de que, em tempos passados, punições severas eram executadas naquelas mesmas muralhas para quem cometia crimes como roubo.
Interações Locais: O Povo Afegão e a Hospitalidade
Uma das coisas que mais me marcou em Herat foi a recepção das pessoas. Diferente da imagem que a mídia costuma passar, os afegãos são extremamente calorosos. Tivemos a oportunidade de conversar com locais que vivem no Irã e retornaram para visitar a família. O idioma falado aqui é o Dari, que é praticamente idêntico ao Farsi iraniano, facilitando a comunicação entre os dois lados da fronteira.
Muitos nos paravam na rua apenas para dizer: “Welcome to my country” (Bem-vindo ao meu país). Eles ficam genuinamente felizes em ver turistas, pois isso traz uma sensação de normalidade e esperança de que o mundo não os esqueceu totalmente. É claro que falar de política exige cautela, mas a gratidão deles pela nossa presença é evidente.
Ser Mulher no Afeganistão: Desafios e Cuidados
Viajar com a Nick trouxe uma perspectiva essencial sobre a situação das mulheres. Em Herat, a “polícia moral” — homens vestidos de branco que circulam pela cidade — fiscaliza o uso correto do hijab e o comportamento social. A Nick precisava estar constantemente atenta para não deixar o pescoço ou o cabelo à mostra.
O uso do hijab não é apenas uma questão de respeito cultural, mas de segurança pessoal. Houve momentos de tensão, como quando percebemos olhares mais pesados ao anoitecer. Em uma ocasião, a Nick se sentiu cercada por jovens em uma loja, o que nos fez decidir voltar para o hotel e jantar por lá mesmo. A liberdade em Herat existe em comparação a cidades como Kandahar (berço do Talibã), mas ainda é uma liberdade vigiada e muito restrita para as mulheres.
O Grande Bazar de Herat e a Vida Cotidiana
O bazar de Herat é um labirinto de cores e tradição. Diferente de Cabul, que tem um ar mais caótico e moderno, o bazar de Herat mantém construções de barro e tijolinhos que parecem ter saído de um filme de época. Vimos montanhas de algodão, pães afegãos gigantes saindo dos fornos e muitas romãs suculentas.
Uma curiosidade tecnológica: o uso de painéis solares é onipresente. Como muitas cidades sofrem com a falta de infraestrutura elétrica estável, a energia solar vinda da China tornou-se a salvação para iluminar casas e pequenos negócios. É o encontro do Afeganistão bíblico com a tecnologia moderna.
Vale a Pena Viajar para o Afeganistão Independente?
Muitos nos perguntam se viajar para cá não seria “apoiar o regime”. Minha visão é prática: a maior parte do dinheiro que gastamos vai diretamente para o povo. O taxista, o dono da lanchonete e o pequeno comerciante dependem desse fluxo para sobreviver. Apenas uma pequena taxa de permissão de viagem vai para os cofres do governo.
Herat provou ser uma cidade de contrastes. Ao mesmo tempo que você sente a hospitalidade milenar, há o desconforto da vigilância constante e da privação de liberdade de metade da população. Viajar para o Afeganistão sem guia requer nervos de aço, respeito profundo às leis locais e uma vontade genuína de entender a complexidade geopolítica da região.
Se você busca uma viagem que mude sua percepção de mundo, Herat é o lugar. Mas esteja preparado: não é apenas um passeio turístico, é um mergulho profundo na resiliência humana.




