Você já se perguntou como é atravessar um dos países mais enigmáticos do mundo sobre trilhos? Recentemente, vivi uma das experiências mais intensas e surpreendentes da minha vida de nômade digital: viajar de trem no Paquistão. Se você está planejando uma aventura pelo Sul da Ásia ou apenas tem curiosidade sobre esse destino, prepare-se, porque o que eu encontrei entre Peshawar e Islamabad (via Rawalpindi) foi muito além de simples paisagens; foi um mergulho em uma hospitalidade insana.
Neste artigo, vou te contar tudo sobre como é a segurança, como comprar passagens, os desafios de trabalhar a bordo e por que você deveria considerar o Paquistão como seu próximo destino de viagem. Ou veja meu vídeo completo sobre viajar de trem no Paquistão:
A Partida de Peshawar: Segurança Máxima e Sorrisos
Minha jornada começou em Peshawar, uma cidade histórica e vibrante, mas que exige atenção. Para você ter uma ideia da seriedade do contexto local, nossa saída do hotel até a estação de trem — um trajeto de apenas 4 minutos — precisou de escolta policial. No Paquistão, o governo leva a segurança dos turistas estrangeiros como prioridade absoluta. É uma sensação estranha e, ao mesmo tempo, confortante.
Enquanto caminhávamos pela estação de Peshawar City, construída pelos britânicos em 1928, fomos cercados por policiais e seguranças armados com AK-47. Pode parecer intimidador no papel, mas a realidade é que esses homens foram extremamente amigáveis, agindo quase como guias, nos mostrando onde ir e até pedindo para tirar fotos conosco.
O Mito da Hospitalidade Paquistanesa: Tratados como Reis
Muitas pessoas me perguntam se é perigoso viajar pelo Paquistão. Minha resposta curta é: estatisticamente, o risco aqui é muitas vezes menor do que morar em grandes metrópoles do Brasil ou viajar pela América Central. O que realmente define o país não são os conflitos que vemos nos noticiários, mas a hospitalidade.
Ao chegar na estação, o chefe da estação pessoalmente nos ajudou a encontrar nosso vagão. No Paquistão, se você é estrangeiro, as pessoas fazem de tudo para que você se sinta bem-vindo. Recebemos um “upgrade” inesperado para a classe Executiva (Business Class) simplesmente porque os funcionários queriam garantir que tivéssemos a melhor experiência possível.
O custo? Pagamos cerca de R$ 40,00 por um bilhete com ar condicionado. É uma pechincha considerando a distância e o nível de serviço “VIP” que recebemos dos locais.
Como Comprar Passagem de Trem no Paquistão
Aqui vai uma dica de ouro para quem quer seguir meus passos: use o aplicativo oficial da ferrovia. Tentar comprar pelo site pode ser uma dor de cabeça, pois muitas vezes o sistema não aceita cartões estrangeiros ou limita a compra de apenas um bilhete por nome.
O aplicativo (Pakistan Railways) funcionou muito melhor. Ele gera um código que você apresenta na estação. Outro ponto importante: esteja preparado para verificações constantes de passaporte. A inteligência paquistanesa monitora os deslocamentos de estrangeiros para garantir que nada aconteça. Eles sabem exatamente onde você está hospedado e para onde está indo. Embora pareça invasivo, é o que permite que o turismo continue crescendo com segurança.
A Experiência a Bordo: Conforto vs. Realidade
O trem que pegamos é antigo, nostálgico e tem aquele charme de eras passadas. A cabine da classe executiva que ficamos era confortável, com ventiladores, ar condicionado e espaço para dormir (seis camas por compartimento).
Trabalhando no Trem: O Desafio do Nômade
Como viajo editando vídeos e escrevendo, tentei trabalhar durante o trajeto. No entanto, o trem paquistanês balança muito. Edição de vídeo requer precisão, e o computador quase voou da mesa algumas vezes. Se o seu foco é produtividade extrema, o ônibus (como a frota da Daewoo Express) pode ser mais estável. Mas, se o seu foco é ver a vida passar, o trem é imbatível.
As Outras Classes
Fiz uma rápida exploração pelas outras classes para entender a realidade local. As classes sem ar condicionado são barulhentas, cheias de poeira e muito mais povoadas, mas os bilhetes custam por volta de R$ 11,00 para três horas de viagem. É onde o “Paquistão Real” acontece, com janelas abertas e muita interação social.
O Que Ver da Janela: Da História à Poluição
Viajar de trem permite que você passe literalmente pelo quintal das pessoas. Vi crianças correndo para dar tchau, campos improvisados de cricket (a paixão nacional) e fortificações militares antigas.
Infelizmente, nem tudo são flores. A poluição no Paquistão, especialmente em novembro, é severa. A neblina química e a fumaça de queimadas criam uma névoa que impede de ver o horizonte. É um lembrete triste dos desafios ambientais que o país enfrenta enquanto tenta se modernizar.
Rawalpindi: O Portão de Entrada para Islamabad
O trem não vai direto para a capital, Islamabad. Você deve descer em Rawalpindi, que é a cidade vizinha. A estação de “Pindi” é belíssima, bem preservada e possui até uma antiga locomotiva britânica em exposição. De lá, a melhor forma de chegar a Islamabad é pegar um Tuk-Tuk ou um Uber/Indrive, o que leva cerca de 30 a 40 minutos.
Conclusão: Por Que Você Deve Ir?
Minha viagem de trem pelo Paquistão foi um lembrete de que o mundo é muito maior e mais acolhedor do que as telas de TV sugerem. Saí de Peshawar com novos amigos no WhatsApp (incluindo policiais e seguranças) e uma gratidão imensa por um povo que, apesar das dificuldades econômicas e políticas, trata o visitante como um presente de Deus.
Se você busca uma viagem autêntica, barata e repleta de história, o Paquistão está te esperando. Esqueça os preconceitos e embarque nessa locomotiva.





