Viajar para o Paquistão é, por si só, uma aventura fora da curva. Mas quando o destino é Peshawar, no norte do país e a poucos quilômetros da fronteira com o Afeganistão, a experiência atinge um nível completamente novo. Recentemente, vivi algo que nunca imaginei: precisei de uma escolta policial armada para simplesmente caminhar pelas ruas e explorar os segredos dessa cidade milenar.
Neste artigo, vou te contar em detalhes como é a sensação de ser vigiado por fuzis AK-47, como é a hospitalidade do povo pashtun e por que Peshawar é um dos lugares mais fascinantes (e intensos) que já visitei em toda a minha vida de viajante. Ou veja meu vídeo completo explorando Peshawar:
O Choque de Realidade: Por que Precisei de Escolta?
Logo que chegamos a Peshawar, vindo de Lahore, percebemos que as regras do jogo eram diferentes. O hotel onde nos hospedamos — uma pechincha de 5 dólares por noite, mas surpreendentemente bom — já nos avisou: não é permitido que estrangeiros saiam às ruas sem proteção oficial.
A situação estava particularmente tensa devido a um atentado ocorrido em Islamabad naquele mesmo dia. Em Peshawar, a proximidade com a fronteira afegã faz com que o governo paquistanês não queira correr nenhum risco com turistas. O resultado? Três guardas armados nos esperando na porta do hotel todas as manhãs.
No começo, a sensação é de desconforto. Você se sente um alvo, chamando atenção desnecessária. Mas, com o tempo, o gelo quebra. Descobri que aqueles homens de farda eram, acima de tudo, seres humanos incríveis. Um deles era fã de futebol brasileiro e sabia o nome de quase todos os nossos jogadores. De “seguranças”, eles rapidamente se tornaram nossos amigos e guias.
O Consulado do Afeganistão e a Bandeira Branca
Nosso principal motivo para estar em Peshawar era burocrático: precisávamos tirar o visto para entrar no Afeganistão por terra (embora, no final, a fronteira tenha fechado e tivemos que voar).
Entrar no consulado foi uma experiência surreal. Por ser uma área de segurança máxima, tivemos que deixar câmeras e celulares do lado de fora. Ver a bandeira branca do governo atual do Afeganistão e interagir com os oficiais de lá traz um peso histórico difícil de descrever. Mas, para nossa surpresa, o processo foi rápido e saímos com um visto novinho, que tinha apenas três dias de existência no novo modelo oficial.
Fábrica de Armas: O Lado Inusitado de Peshawar
Uma das paradas mais bizarras e interessantes do nosso tour foi uma fábrica de armas. Em Peshawar, a produção de armamentos é uma indústria regularizada e muito presente. Visitamos a Sultan Arms, onde fomos recebidos com o tradicional chá (chai) paquistanês e muita hospitalidade.
Lá, conversamos com um engenheiro que estava prestes a ir para o Brasil, mais especificamente para Pelotas, no Rio Grande do Sul, para fazer um PhD em sensores biomédicos. Foi um momento de “mundo pequeno” fantástico! Aproveitei para dar dicas de segurança para ele sobre o Brasil, enquanto ele me explicava sobre a qualidade das armas sérvias e as famosas Glocks que eles produzem ali.
Explorando a Cidade Velha: 2.500 Anos de História
Peshawar não é apenas sobre armas e militares; é uma das cidades mais antigas do Sul da Ásia, com mais de 2.500 anos de história. Caminhar pelo centro antigo, conhecido como Kissa Khwani Bazaar (o Mercado dos Contadores de Histórias), é como voltar no tempo.
Alguns dos pontos altos que conseguimos visitar (sempre com a polícia abrindo caminho no trânsito com sirenes) foram:
- Torre do Relógio (Cunningham Clock Tower): Construída em 1900 para celebrar o Jubileu de Diamante da Rainha Vitória.
- Complexo de Gor Khatri: Um local arqueológico fascinante que contém 13 camadas de diferentes civilizações, desde os gregos e budistas até os britânicos.
- Templo Hindu: Visitamos um templo sagrado para os hindus, localizado bem ao lado de uma mesquita, mostrando que, apesar das tensões políticas, a história religiosa de Peshawar é diversa e resiliente.
A Gastronomia: O Fogo do Biryani
Nossa escolta nos levou para almoçar o tradicional Biryani de Peshawar. O prato é uma mistura deliciosa de arroz, frango e batatas, mas com um detalhe: o nível de pimenta é insano! Mesmo pedindo “sem pimenta”, meus olhos lacrimejaram.
Um detalhe curioso sobre o almoço foi que nos colocaram em um quartinho separado, fechado por uma cortina. No Paquistão, isso é comum para dar privacidade às mulheres (no caso, a Nick) ou por segurança, para não deixar o turista “moscando” e visível para quem passa na rua por muito tempo.
Os Ônibus de Peshawar: Obras de Arte Sobre Rodas
Para fechar o dia com chave de ouro, visitamos uma oficina de decoração de ônibus. No Paquistão, os ônibus são quase carros alegóricos. Eles são pintados à mão, cobertos de luzes, lustres e detalhes em metal que brilham à noite. É uma explosão de cores e luzes que parece uma balada itinerante. Conhecer os artesãos por trás dessas máquinas foi uma das partes mais autênticas da viagem.
Vale a Pena Visitar Peshawar?
Peshawar não é um destino para qualquer um. É barulhento, militarizado e pode ser intimidador. No entanto, a hospitalidade do povo local é incomparável. Eles nos disseram várias vezes: “Vocês são nossos hóspedes, é nosso dever proteger vocês”.
Apesar de não termos tido a liberdade de explorar sozinhos como gostaríamos, a experiência de ver o mundo através dos olhos dos policiais que vivem aquela realidade diariamente foi impagável. Saímos de lá com o WhatsApp cheio de novos amigos paquistaneses e uma visão muito mais profunda sobre a complexidade e a beleza dessa região.
Se você busca conforto e previsibilidade, fique em casa. Mas se você busca história viva e conexões humanas reais em lugares improváveis, Peshawar precisa estar na sua lista.





